O Exercício Físico no Câncer de Próstata

O câncer de próstata é uma das formas mais comuns de câncer entre os homens. As elevadas taxas de sobrevivência do paciente refletem melhorias na detecção precoce, através da triagem de antígeno específico da próstata (PSA) e nas modalidades de tratamento como a cirurgia (prostatectomia) e terapia de privação androgênica (ADT, do Inglês Androgen Deprivation Therapy) – estatísticas recentes indicam taxas de sobrevivência de até 76,5% aos cinco anos pós-diagnóstico.

Independente da opção de tratamento, as pessoas experimentam vários efeitos negativos associados ao câncer e seu tratamento. Duas destas sequelas são recorrentes: fadiga e perda de massa muscular. A primeira, que parece refletir principalmente as alterações fisiológicas (anemia, por exemplo) e de mecanismos do sistema nervoso central, pode impedir os pacientes de realizarem as atividades físicas mais simples, aumentando assim o risco de desenvolverem síndromes metabólicas. A segunda, relacionada com a ADT, contribui para diminuições substanciais na composição corporal, com perdas de massa óssea, força muscular e desempenho funcional – pacientes com câncer de próstata em ADT possuem taxas de fraturas relacionadas às quedas até quatro vezes maiores, quando comparados aos seus pares saudáveis. Somados, estes efeitos interferem no desempenho de atividades diárias (por exemplo, capacidade de realizar autocuidado, trabalho e atividades de lazer) reduzindo a qualidade de vida e sobrevida do paciente.

Por estas razões, um dos principais objetivos das terapias complementares em homens com câncer de próstata é a restituição da qualidade de vida e redução dos níveis de fadiga. Neste sentido, a prática de exercícios físicos tem sido considerada opção primária na gestão desta patologia, revertendo ou neutralizando a maioria destas sequelas com mínimos efeitos colaterais.

Na última década, muito foi realizado no campo da pesquisa cientifica em relação aos efeitos terapêuticos do exercício físico no paciente com câncer de próstata, suficiente para já existir robustas revisões que atestam o seu uso. Em uma de 2012, foram encontradas evidências de alta qualidade na melhora da qualidade de vida e fadiga em homens com câncer de próstata durante o tratamento (principalmente na ADT e em estágios avançados) após a realização de um protocolo de exercícios físicos. Também foram vistos benefícios na atividade sexual do paciente e de suas capacidades físicas – força e aptidão cardiorrespiratória. Os autores ressaltam que o médico responsável pelo tratamento deve desempenhar um papel em defender diretamente a prática de exercícios aos pacientes com câncer de próstata e, sempre que possível, encaminha-los para locais de referência, por exemplo, na comunidade. E que qualquer programa de exercícios deve ser individualmente adaptado, levando em consideração as capacidades e limitações físicas do paciente.

Em revisão recente (2016) chegou-se à conclusão que o exercício físico realizado três dias por semana pode melhorar significativamente a aptidão física, desempenho funcional e qualidade de vida e reduzir a fadiga em pacientes com câncer de próstata – resultados semelhantes aos da revisão de 2012. Tanto os exercícios aeróbios, de força (musculação) e os combinados (aeróbios + força) favorecem estes ganhos. Quando comparados, exercícios realizados em grupo (local apropriado) e exercícios realizados em casa, os em grupo foram mais efetivos em promover tais benefícios.

Mais uma vez, os autores ressaltam a importância dos médicos oncologistas e de especialistas em cuidados paliativos no apoio e encorajamento à prática de exercícios físicos, uma vez que os pacientes são mais suscetíveis a seguir os conselhos destes profissionais. Desta forma, mais pacientes com câncer de próstata iriam iniciar e aderir a um programa de exercícios. No entanto, 70% dos pacientes com câncer não recebem aconselhamento sobre o exercício e seus benefícios durante o tratamento – dados do Canadá, imagine como deve ser no Brasil.

Percebe-se que, à luz destes achados, os efeitos benéficos do exercício no paciente com câncer de próstata são inúmeros e incontestes. Entretanto, o principal problema parece estar na falta de conhecimento por parte dos profissionais da área de saúde que atendem o paciente.

Leituras sugeridas:
Keogh, Justin WL, and Roderick D. MacLeod. “Body composition, physical fitness, functional performance, quality of life, and fatigue benefits of exercise for prostate cancer patients: a systematic review.” Journal of pain and symptom management 43.1 (2012): 96-110.
Bourke, Liam, et al. “Exercise for men with prostate cancer: a systematic review and meta-analysis.” European urology 69.4 (2016): 693-703.

Rodrigo Ferraz, Educador Físico

Fonte: http://www.oncoguia.org.br/conteudo/o-exercicio-fisico-no-cancer-de-prostata/10096/892/

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